sábado, 25 de agosto de 2007

:: sensações ::

"As palavras emitidas sem destinatários específicos não esperavam respostas, mas estas vieram em prontidão. Não eram palavras à você, ao menos, não diretamente. Mas confesso, que os olhares, guardados desde aquele dia, em que tocava em seu violão suas vibrações, cedendo aos meus pedidos e compreendendo minhas vontades não definidas, transbordaram aquele dia. Mesmo que as íris tivessem obstáculos, sabiamos a direção do olhar em cada tirimbar das cordas vocais, mas sem ilusões de expectativas vãs... Queria e esperava vê-lo a noite, como por acaso, e tentar olhares, mais por angariar sonhos do que por convicção da correspondência e vi, distante, sem nenhuma possibilidade de ver-me. Sem querer, no entanto, inicia-se uma conversa... cada gesticulação das mãos convulcionadas e das palavras, às vezes perdidas em meio aos pensamentos, olhares... E no fim da festa, um tão tradicional: "Será?". Encontros ao acaso, será um dia... ?"

Do silêncio que virou mudez...

"Você é surdo?
Perto de você é impossível controlar as batidas taquicardíacas do meu coração que oxigena suas sensações por todo o meu corpo, mas você se ri de mim porque pareço muda diante de você.
Você é cego?
Se pudesse ler o braille transcrito em cada olhar que dirigo, em meio a confusão de olhares, os tantos versos que jamais saberá seus. Prefere o som do radinho a pilha, que chia mais que canta, as palavras cata-vento sopradas quase ao acaso, sem destinatário.
Você é/está mudo?
Transborda expressões tão banais a qualquer coisa tão mais banal ainda, percorrendo situações futeis, respondendo esbravejamentos tão levianos e nem sorri, em palavras-gestos, as notas dedicadas a você.
Você está morto?
Que não percebe a vida que corre em cada silêncio meu dedicado as impressões todas que impregnam minha alma de você? Não percebe que meu silencio não é mudez e que natimorto o sentimento não pode esperar mais...
Você não ouvirá mais meu silêncio... cansado, ele a pouco virou mudez (!)"

domingo, 12 de agosto de 2007

Releitura 2


"Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
da perna, talvez do ombro.
(...)
E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
(...)
E sequer nos compreendemos.
É dama de alta
fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
(...)
Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!
(...)
Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo
tal como é ou deve ser:
branca, intata, neutra, rara,
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.
(...)
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe...
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe
demais; até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando
em ruas de peixe e lágrima
Aos operários: a vistes?
Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.
(...)
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário
que fez de Fulana um mito,
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;
(...)
E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos... que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreedemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.) "
Carlos Drummond de Andrade
""Se querendo ver Fulano
vejo Fulano tão pouco,
Fulano jamais me vê,
mas como amo Fulano.
Amarei mesmo Fulano?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha d´alma,
dos gestos, talvez de tudo.
(...)
E Fulano diz profundidades,
diz marxismo, arte e cultura.
Fulano me bombardeia
no entanto sequer me vê.
(...)
E sequer nos compreendemos.
É dono de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de medo
me basto pensando nele.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
(...)
Mas eu sei quanto me custa
manter esse mistério,
esse silêncio reticênte
e não gritar: Eu, Fulano!
(...)
Como tentar invadir
sua porta de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-lo depois ao povo
tal como é profundo, raro,
feito de poesia,
de sentimentos e emoções.
(...)
Mas Fulano me compreenderá?
Estará somente em ilusão?
Será de verdade?Será?
Saberei?Não poderei?
Só dizendo,pedindo: Dono, desculpe...
eu sou real, tenho coxas e cintura!
mas não apenas isso...
Fulano às vezes aproxima
demais; até me apavora.
Vou sozinha pela rua,
eis que Fulano me roça.
Olho: não tem mais Fulano.
Destino se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o caminho dos teus passos.)
E eu calada, pervagando
em ruas de peixe e lágrima
Às operárias: o vistes?
Não, dizem as operárias.
Às amazonas: O viste?
Dizem não as amazonas.
Acaso o vistes, doutoras?
Mas elas respondem: Não
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulano
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulano
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije na Paulista,
talvez se banhe em Maresias;
talvez me pinte no sonho
indo de taxi; talvez aplauda
certa peça impecável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez recorte notícias,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.
(...)
Fulano é todo engajado,
tem um motor na barriga.
Suas palavras são lancinantes,
seus beijos: como saber?,
refrigerados, demorados
em máquina multilite (?).
Fulano, como é sadio!
A enferma sou eu.
Sou eu, a poeta misteriosa
que fez segredo à Fulano,
nutrindo-me de Fernando Pessoa,
Lispector, Maiakovski e Brecht;
(...)
E nessa fase misteriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulano, abrasados,
queremos... que mais queremos?
E digo a Fulano: Ainda
não nos compreedemos.
Ainda sofro, ainda brilhas,
somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
que penso e, ainda, não sei falar.)"
Monica Mamede