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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A medida do tempo


" [...]pois só a justa medida do tempo, dá a justa natureza das coisas
” 
(Nassar, R. Lovoura Arcaica. 1989, p.55)



[Imagem: Mark Mawson - Aqueous Fluoreau]


Que as certezas colocadas à prova 
e que a espera(nça) rigorosa 
possam vir colorir a vida!



sábado, 4 de junho de 2011

Ainda não foi, quem sabe será



"[...] mas virá, cabelos tão negros, rosto quase quadrado, quase largo, quase pálido, olhos perdidos, boca de naufrágio vermelho pesado sobre o escuro da barba malfeita, olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, vou dizendo leve, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e então, no teu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa - gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você."

.

Caio Fernando Abreu


sábado, 8 de janeiro de 2011


"[...] sem se possuir a si mesmo, jamais poderia possuir a outridade. E afinal, quem possuia a verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si mesmo, da solidão absoluta que significa nem sequem contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou no matrimônio para estar pelo menos só-entre-os-demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e ecos. Todavia, as pessoas como ele e tantas outras, que se aceitavam a si mesmos (ou que se repeliam, mas conhecendo-se de perto), entravam sempre no pior paradoxo, estar talvez à beira da outridade e não poder alcançá-la. A verdadeira outridade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro."

Júlio Cortázar - O Jogo da Amarelinha (Vol.1)
SP: Abril Cultural, 1985 - p.116

sábado, 11 de setembro de 2010

Porque ela me traduz, seja em verso seja em prosa

Um Sopro de Vida
Clarice Lispector
(1978)


"Eu não sou uma sonhadora. Eu só devaneio para alcançar a realidade."

"Ela é cheia de oportunidades perdidas."

"Tudo nela se organiza em torno de um enigma intangível em seu núcleo mais íntimo."

"Meu enorme desperdício de mim mesma"

"A  prova  de  que  estou  recuperando  a  saúde mental,  é  que  estou cada  minuto  mais  permissiva:  eu  me  permito  mais  liberdade  e  mais experiências. E  aceito  o  acaso. Anseio  pelo  que  ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou  felizmente mais doida. E minha  ignorância aumenta. A diferença entre o doido e o não-doido é que o não-doido não diz  nem  faz  as  coisas  que  pensa.  Será  que  a  polícia me  pega? Me  pega porque existo? paga-se com prisão a vida: palavra linda, orgânica, sestrosa, pleonástica, espérmica, duróbila."


sábado, 3 de julho de 2010

Desejos


[Imagem: Alan Feltus - Hotel Paradiso (1999) ]





"Andávamos sem nos procurar,
mas sabendo sempre que
andávamos para nos encontrar"

Julio Cortázar
O Jogo da Amarelinha, p.19

sábado, 13 de março de 2010

Porque ele me traduz em prosa




"[...] mas preferia always não ser agressiva, mas dizer o q pensava REALMENTE com maiúsculas (era tão pretencioso pensar q pudesse um day dizer REALMENTE tudo q pensava em maiúsculas) - enfim, Sally calava. Só q nos últimos tempos, vinha observando sem tomar nenhuma decisão about that, mas nos últimos tiempos vinha calando demás"

Caio Fernando Abreu
In: Pedras de Calcutá, 2007, p.117.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Que seja, sem deixar de sermos...

É humano querer o que nos é preciso,
e é humano desejar o que não nos é preciso

mas é para nós desejável.
O que é doença é
desejar com igual intensidade
o que é preciso e o que é desejável,
e sofrer por não ser perfeito
como se sofresse por não ter pão.
O mal romântico é este:
querer a Lua
como se houvesse maneira de a obter."


.
Livro do Desassossego - Bernardo Soares (Fernando Pessoa)



segunda-feira, 28 de setembro de 2009





"Porque há desejo em mim, é tudo cintilância"

Hilda Hilst





segunda-feira, 6 de abril de 2009

O mundo dos homens

"(Di)lemas
sucumbem o homem
das risonhas ilusões à
deletéria concretude"

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ontem, hoje e amanhã

"E, de qualquer forma, às cegas, às tontas, tenho feito o que acredito"
Caio Fernando Abreu

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Good Woman - Cat Power
I want to be a good woman
And I want, for you to be a good man.
This is why I will be leaving
And this is why, I can't see you no more.
I will miss your heart so tender
And I will love
This love forever
I don't want be a bad women
And I can't stand to see you be a bad man
I will miss your heart so tender
And I will love
This love forever
And this is why I am leaving
And this is why I can't see you no more
This is why I am lying when I say
That I don’t love you no more
Cause I want (to) be a good women
And I want for to be a good man





Para ouvir esta música:
http://www.mixwit.com/maoscoloridas/cat-power

Para conferir outros sons de Cat Power

http://b.radio.musica.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&ref=Musica&busca=cat+power&param1=homebusca&q=cat+power&check=artista&x=49&y=7

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Do ciúme descabido

"(...)mas as lições do silêncio
podem não ser menos poderosas
que as da palavra(...)"
106 Anos - SARAMAGO In: O Caderno de Saramago

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Porque ela me traduz em versos

Psicografia - Ana Cristina César

"Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração não saibe e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto"

sábado, 3 de novembro de 2007

Para aprender a ler-me

"O último poema rasguei-o
não soubeste ler-me ainda
"
Monica Mamede


"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música.
Tem peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a
ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de
uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa
uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o
imaterial peso da solidão no meio de outros"
Clarice Lispector

domingo, 12 de agosto de 2007

Releitura 2


"Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
da perna, talvez do ombro.
(...)
E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
(...)
E sequer nos compreendemos.
É dama de alta
fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
(...)
Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!
(...)
Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo
tal como é ou deve ser:
branca, intata, neutra, rara,
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.
(...)
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe...
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe
demais; até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando
em ruas de peixe e lágrima
Aos operários: a vistes?
Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.
(...)
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário
que fez de Fulana um mito,
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;
(...)
E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos... que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreedemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.) "
Carlos Drummond de Andrade
""Se querendo ver Fulano
vejo Fulano tão pouco,
Fulano jamais me vê,
mas como amo Fulano.
Amarei mesmo Fulano?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha d´alma,
dos gestos, talvez de tudo.
(...)
E Fulano diz profundidades,
diz marxismo, arte e cultura.
Fulano me bombardeia
no entanto sequer me vê.
(...)
E sequer nos compreendemos.
É dono de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de medo
me basto pensando nele.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
(...)
Mas eu sei quanto me custa
manter esse mistério,
esse silêncio reticênte
e não gritar: Eu, Fulano!
(...)
Como tentar invadir
sua porta de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-lo depois ao povo
tal como é profundo, raro,
feito de poesia,
de sentimentos e emoções.
(...)
Mas Fulano me compreenderá?
Estará somente em ilusão?
Será de verdade?Será?
Saberei?Não poderei?
Só dizendo,pedindo: Dono, desculpe...
eu sou real, tenho coxas e cintura!
mas não apenas isso...
Fulano às vezes aproxima
demais; até me apavora.
Vou sozinha pela rua,
eis que Fulano me roça.
Olho: não tem mais Fulano.
Destino se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o caminho dos teus passos.)
E eu calada, pervagando
em ruas de peixe e lágrima
Às operárias: o vistes?
Não, dizem as operárias.
Às amazonas: O viste?
Dizem não as amazonas.
Acaso o vistes, doutoras?
Mas elas respondem: Não
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulano
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulano
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije na Paulista,
talvez se banhe em Maresias;
talvez me pinte no sonho
indo de taxi; talvez aplauda
certa peça impecável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez recorte notícias,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.
(...)
Fulano é todo engajado,
tem um motor na barriga.
Suas palavras são lancinantes,
seus beijos: como saber?,
refrigerados, demorados
em máquina multilite (?).
Fulano, como é sadio!
A enferma sou eu.
Sou eu, a poeta misteriosa
que fez segredo à Fulano,
nutrindo-me de Fernando Pessoa,
Lispector, Maiakovski e Brecht;
(...)
E nessa fase misteriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulano, abrasados,
queremos... que mais queremos?
E digo a Fulano: Ainda
não nos compreedemos.
Ainda sofro, ainda brilhas,
somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
que penso e, ainda, não sei falar.)"
Monica Mamede

sábado, 7 de julho de 2007

Releitura

"Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguéme ninguém entrou,
sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!"
Neruda

"Bati a tua porta perto de maio,
na dúvida se me atenderia
entrei mesmos assim, sentei-me numa cadeira
e transcorreu comigo, o ausente.

Nunca consigo esquecer o silêncio daquela ausência
Que entrava como poema em sua causa
E me satisfazia com a sua voz ausente que lia-os
Como uma possibilidade aberta a tudo.

Alguém me interrogou sem dizer nada
E continuei sentada a cadeira a espera do ausente.

Que espera(nça) espaçosa e especial!"
Releitura - Monica Mamede

sábado, 30 de junho de 2007

[Imagem: Irisz Agocs]

"Ela ficava olhando pela janela
vertendo seu único olho pela janela
com o pé em cima da janela
Ela ficava olhando pela janela
O dia inteiro o olho, o pé, a janela
em cima embaixo pelos lados da janela
Ela ficava olhando pela janela
um dia ela cansou de olhar e fechou a janela
mas era dura e não fechava a janela
Ela ficava olhando pela janela
às vezes tentava mas logo
esquecia da janela
que sempre aberta com um olho e um pé a janela
Ela ficava olhando pela janela
até que um dia seus pensamentos
dissociaram a janela
que caiu inteiriça, e era uma caída janela
Ela ficava olhando pela janela
que não era, nem existia como janela:
Ela ficava olhando pelo buraco"

Ana Cristina César

sexta-feira, 15 de junho de 2007

"Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia"
Ana Cristina César

quarta-feira, 30 de maio de 2007

"Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café "
Ana Cristina Cesar